Dissecando a Medicina
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O sinal de Kussmaul e o busto de Michelangelo

Uma jugular que enche quando deveria esvaziar. E um busto de 1564 que talvez mostre o mesmo sinal.

Peça para o paciente respirar fundo e olhe o pescoço.

Na inspiração, a pressão no tórax cai e a jugular deveria baixar. Quando ela enche em vez de esvaziar, é o sinal de Kussmaul: um ventrículo direito que não consegue receber mais volume. Pense em pericardite constritiva, cardiomiopatia restritiva, infarto de VD e insuficiência cardíaca direita grave. No tamponamento, ao contrário do que se costuma decorar, ele é raro.

Para quem usa POCUS: em 2024, um relato de caso na Circulation: Heart Failure mostrou o sinal no ultrassom. Com o transdutor sobre a jugular interna, a veia aumentava de diâmetro a cada inspiração profunda, e o cateter confirmou a subida da pressão venosa central. Os autores chamaram o achado de “uKussmaul”.

Adolf Kussmaul descreveu o sinal em 1873. Mais de 300 anos antes, em 1564, Daniele da Volterra fundiu em bronze o rosto do amigo Michelangelo, morto naquele ano aos 88 anos.

Em 2025, o anatomista brasileiro Deivis de Campos (UFCSPA e UNISC) notou no pescoço desse busto uma veia jugular externa distendida, compatível com o sinal de Kussmaul. Para ele, uma doença cardíaca na velhice é hipótese tão plausível quanto as outras já propostas para os males do artista.

É o iconodiagnóstico: ler sinais clínicos numa obra de arte. Não substitui um laudo, mas treina o que nenhum exame substitui, o olhar.

Para quem quer conhecer melhor Michelangelo: O dedo de Deus pelas mãos de Michelangelo, de Deivis de Campos (Editora Telha, 2023).

Referências

  1. DE CAMPOS, D. The Kussmaul sign in Michelangelo Buonarroti (1475–1564). Ethics, Medicine and Public Health, v. 33, 101023, 2025.
  2. DE CAMPOS, D. Horton's disease in Michelangelo Buonarroti (1475–1564): the origin of his neurological debilitations in old age. Neurological Sciences, v. 44, p. 1783–1785, 2023.
  3. KUSSMAUL, A. Ueber schwielige Mediastino-Pericarditis und den paradoxen Puls. Berliner klinische Wochenschrift, v. 10, 1873.
  4. JOHNSON, S. K. et al. Adolf Kussmaul: distinguished clinician and medical pioneer. Clinical Medicine & Research, v. 7, n. 3, p. 107–112, 2009.
  5. DUBÉ, E. et al. Kussmaul's sign for the diagnosis of right ventricular myocardial infarction: a systematic review and meta-analysis of diagnostic test accuracy studies. CJEM, v. 23, p. 185–194, 2021.
  6. CHARLIER, P. et al. Iconodiagnosis: guidelines and recommendations. Ethics, Medicine and Public Health, v. 31, 100951, 2023.
  7. DUVALYAN, A.; RIGGS, K. A.; THIBODEAU, J. T.; DRAZNER, M. H. Kussmaul's sign by point-of-care ultrasound. Circulation: Heart Failure, v. 17, n. 6, e011714, 2024.
  8. DE CAMPOS, D. O dedo de Deus pelas mãos de Michelangelo. Editora Telha, 2023.
  9. FARRUGIA, B. Deivis de Campos, o brasileiro que desvenda segredos do gênio Michelangelo. UOL Entretenimento/ANSA, 22 mar. 2018.

Créditos

Imagens do carrossel: elevação da pressão venosa jugular, James Heilman, MD, CC BY-SA 3.0; Adolf Kussmaul, fotogravura, Wellcome Collection, CC BY 4.0; Daniele da Volterra, busto de Michelangelo, Galleria dell'Accademia, Florença, foto Gallerie degli Uffizi, reproduzida em De Campos (2025); Deivis de Campos, UFCSPA WebTV; capa do livro, divulgação.

Imagem de capa: elevação da pressão venosa jugular, James Heilman, MD (CC BY-SA 3.0), via Wikimedia Commons.